Casos de demência podem triplicar no Brasil até 2050. Especialistas debatem sobre autonomia e decisões ao longo da doença São Paulo,...
Casos de demência podem triplicar no Brasil até 2050. Especialistas debatem sobre autonomia e decisões ao longo da doença
São Paulo, 16 de março de 2026 - Com o envelhecimento acelerado da população,
especialistas destacam a importância do planejamento antecipado de cuidados
para preservar a autonomia de pessoas com Alzheimer e outras demências.
“O avanço das demências, especialmente da doença de Alzheimer, tornou-se um dos principais desafios de saúde pública no Brasil e no mundo. Em um país onde o número de pessoas idosas cresce em razão do aumento da expectativa de vida e da redução das taxas de natalidade, intensifica também a preocupação com a capacidade dos sistemas de saúde e das próprias famílias de responder às complexas demandas de cuidado impostas por essas doenças, comenta a doutoranda em Bioética e Direitos Humanos pela Universidade de Brasília, Nelma Melgaço.
Atendimento ao Alzheimer - Dados do Ministério da Saúde indicam que, em 2025, o SUS (Sistema
Único de Saúde) registrou 56,2 milhões de atendimentos ambulatoriais
relacionados ao Alzheimer no Brasil. Os números correspondem a registros de
atendimentos e internações, e não ao total de pessoas atendidas, já que um
mesmo paciente pode utilizar o serviço mais de uma vez. Informações
preliminares também apontam cerca de 30,4 mil óbitos associados à doença no
país. Os dados ainda podem sofrer atualizações conforme novos registros sejam
incluídos no Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM).
O SUS
oferece assistência gratuita e integral às pessoas com Alzheimer, com foco na
estabilização do declínio cognitivo, na melhora da qualidade de vida e no
acompanhamento contínuo de pacientes e cuidadores. O tratamento inclui
medicamentos, além de terapias complementares, como estimulação cognitiva,
fisioterapia, terapia ocupacional, fonoaudiologia e suporte psicossocial.
Envelhecimento acelera crescimento dos casos – O crescimento das demências está diretamente
relacionado à transição demográfica. No mundo, o número de pessoas com 65 anos
ou mais deve mais que dobrar, passando de 761 milhões em 2021 para cerca de 1,6
bilhão em 2050.
No Brasil, estimativas do Ministério da Saúde
indicam que cerca de 8,5% da população com 60 anos ou mais convivem com
demência, o que representa aproximadamente 1,8 milhão de pessoas. As projeções
indicam que esse número poderá chegar a 5,7 milhões de casos até 2050,
impulsionando principalmente pelo envelhecimento populacional.
Perda de memória recente - Além dos impactos clínicos, a demência traz
desafios importantes relacionados à autonomia e à tomada de decisões nos
cuidados em saúde. Por se tratar de uma doença neurodegenerativa progressiva, afeta
diversas funções do cérebro, incluindo comportamento, linguagem, funções ou
habilidades motoras.
Nos estágios iniciais da doença, muitas pessoas
ainda conseguem participar ativamente das escolhas relacionadas ao próprio
tratamento e à organização da vida cotidiana. Com o avanço do quadro, no
entanto, essas decisões passam a depender cada vez mais do apoio de familiares
e cuidadores.
“Por este motivo, é importante discutirmos sobre
cuidados e as preferências pessoais o mais cedo possível, enquanto o paciente
ainda possui capacidade de expressar seus valores e desejos”, alerta dra.
Nelma.
Uma das estratégias recomendadas é a elaboração do
chamado “Plano Avançado de Cuidado” (PAC)”, no qual o paciente tem a
oportunidade de registrar previamente suas preferências sobre tratamento e
cuidados futuros.
“A proposta é garantir que, mesmo quando a doença
comprometer a capacidade de decisão, as escolhas e os valores do paciente
continuem sendo respeitados”, pontua a profissional.
Bioética e autonomia relacional – Segundo a especialista, também existe preocupação em
relação ao envolvimento da família na tomada de decisões médicas, já que
familiares podem ter valores e prioridade divergentes dos pacientes.
“Quando o paciente perde totalmente a capacidade de
decidir, outra pessoa passa a assumir esse papel. Isso pode ser extremamente
problemático em casos de sintomas cognitivos flutuantes, em que a pessoa pode
ser considerada autônoma para algumas decisões, mas não para outras”, explica.
Nelma ressalta ainda que pessoas com deficiências
cognitivas, mentais e psicossociais, enfrentam, constantemente, situações de
exclusão, vitimização, negação de direitos e perda de autonomia. “Precisamos
garantir que cada pessoa possa escolher como deseja viver e ser cuidada
enquanto ainda tem condições de expressar suas vontades”, afirma.
As pessoas acometidas por doenças
neurodegenerativas também podem apresentar regressão nas áreas da linguagem,
dificuldade para reconhecer pessoas e objetos, desorganização, entre outras
limitações cognitivas.
“Com a progressão da doença, a autonomia tende a
ser gradualmente reduzida. Por isso, a capacidade de uma pessoa com Alzheimer
de tomar decisões ou consentir com procedimentos médicos é um tema que gera
debates intensos”, alerta. E acrescenta: “o PAC pode ser um instrumento que
ajudará a guiar a tomada de decisão nos cuidados em saúde em simetria com a
vontade e preferências do paciente quando estiver severamente debilitado”.
Demência no mundo – Segundo a Organização Mundial de Saúde, cerca de 3 bilhões de pessoas convivem com algum tipo de condição neurológica no mundo – o equivalente a mais de uma em cada três pessoas no planeta.
Apesar da dimensão do problema, menos de um terço
dos países possui políticas nacionais estruturadas para enfrentar as doenças
neurológicas. Estimam-se que mais de 11 milhões de mortes registradas
anualmente estejam relacionadas a essas condições. Atualmente, a demência é
considerada a sétima principal causa de morte no mundo.


